CAPOEIRA CEACA

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Joao da Baiana

Morador da Zona Portuária durante boa parte de sua vida, João da Baiana freqüentou a região durante toda sua juventude. Era lá que estava sua família, seus amigos, seu terreiro, seu trabalho e boa parte de sua diversão.

Mas não se contentou só com aquele pedacinho da cidade e, como sambista e folião conquistou muitos outros espaços: da Praça Tiradentes à Lapa Boêmia; do Morro da Favela ao morro de São Carlos, no Estácio; da Praça Onze ao Palácio das Laranjeiras. João da Baiana conviveu entre prostitutas, capoeiras e governadores e, apesar de ter morrido pobre e relativamente esquecido, foi imortalizado posteriormente como sendo um dos maiores sambistas de todos os tempos.

Em várias entrevistas e memórias escritas sobre João da Baiana fica clara a sua participação em vários ranchos da cidade, talvez uma vocação inspirada em seus pais, que junto com outros migrantes trouxeram da Bahia a tradição desse tipo de festejo. De fato, a organização dos ranchos durante o carnaval parece mesmo ter sido obra principalmente dos negros baianos que, desde a segunda do XIX, se instalaram nos bairros da Saúde, Gamboa e Cidade Nova. Central nesse processo foi a figura de
Hilário Jovino Ferreira, Ogã do terreiro de João Alabá que fundou vários ranchos importantes no Rio de Janeiro, como “A Jardineira” e o “Rei de Ouros”, este último contando com a “proteção espiritual”

de Assumano Mina do Brasil, como contou Vagalume.
Hilário chegou na cidade em fins do século XIX70 e, apesar de pernambucano de nascença, teve um importante papel junto à comunidade baiana que se formou em torno da região. Era filho de exescravos alforriados que se mudaram de Pernambuco para Salvador, onde viveu antes de chegar no Rio de Janeiro. A exemplo de Tia Ciata e seu marido, bem como João da Baiana e outros, Hilário Jovino também buscou alianças com gente “da alta” e, como muitos outros migrantes daquela época, filiou-se à Guarda Nacional em busca de proteção e enraizamento na nova cidade. O Lalau de Ouro, como era conhecido na época, morou em vários endereços da zona portuária, como a Pedra do Sal e o Beco João Inácio, no Morro da Conceição. E como João da Baiana e muitos outros negros que viviam na região, também labutou no cais do porto carioca71.
As ruas que circundavam a Praça da Republica – palco da grandiosa festa do Divino Espírito Santo72 – desde os tempos imperiais, quando ainda se chamava Campo de Santana, era o principal espaço festeiro da cidade. O lugar era especialmente propício a esses encontros: era aí que ficava a Estação Central do Brasil, que ligava os subúrbios ao centro da cidade; se as áreas mais nobres da cidade eram ocupadas pelos foliões mais “civilizados”, àquele lugar restavam os foliões menos
favorecidos que, com seus cordões, blocos e ranchos animavam o carnaval dos trabalhadores pobres. No mais, as agremiações sempre poderiam contar com uma ajudinha do comércio local que, formado especialmente pelos mesmos bares, quiosques, cafés, etc., muito se interessava pelo grande público que concorria aos festejos. Assim, no carnaval, a região era palco das festas promovidas pelas associações carnavalescas locais, mas também de outros bairros pobres da cidade, que ali se
encontravam nos dias de folguedo, fazendo de suas ruas e praças o pedaço mais animado da cidade. Ao menos para a população pobre, o que fazia dali também a parte mais “suspeita” e vigiada.Fonte: Fonte: O PORTO NEGRO: CULTURA E TRABALHO NO RIO DE JANEIRO DOS PRIMEIROS ANOS DO SÉC. XX - Dissertação de Mestrado - ERIKA BASTOS ARANTES

0 comentários:

Postar um comentário