Durante as páginas que constituíram esse trabalho, perseguimos alguns
trabalhadores do porto com intuito de que, através de fragmentos de suas histórias de vida, estes nos mostrassem um pouco de como viviam.
Um deles foi Antonio Mina, que nos guiou pelas ruas da cidade contando parte de
sua história. Apesar de não sabermos como aquele africano chegou no Brasil e quando
começou a trabalhar no porto carioca, vimos que muitos africanos, especialmente os minas como ele, fizeram parte do cartão-postal do porto da cidade no século XIX. Esses mesmos africanos que tanto seduziram os viajantes com seus corpos nus, seus ritmos cadenciados e sua forma peculiar de organizar o carregamento de café, causaram medo e desconfiança nos brancos e já no século XIX mereceram atenção especial das autoridades.
No início do século XX, a cidade era outra. Não se ouvia mais os cânticos africanos
ecoando pelas ruas e os guindastes já faziam parte da paisagem do cais, que agora
misturava homens e máquinas. Os poucos africanos que restavam já estavam velhos para
aquele trabalho pesado. No entanto, apesar dos brancos superem os negros numericamente em toda parte da cidade, a cor que predominava no cais ainda era negra. Se por um lado os filhos das Áfricas não cantavam mais suas canções, não balançavam seus chocalhos e nem seduziam mais viajantes, por outro, seus descendentes continuaram colorindo a cena portuária, imbuindo o trabalho e o cotidiano com experiências adquiridas nos tempos da escravidão.
A República, com seus ideais de civilização e suas pretensões científicas, tentaria
arrasar de uma vez por todas qualquer vestígio dessa cultura, perseguindo capoeiras,
feiticeiros, sambistas e todos aqueles que julgavam não se adequar ao novo mundo do
trabalho livre. No pós-abolição, os poucos africanos que restaram na cidade e seus muitos descendentes, agora libertos, traziam na cor da pele as lembranças da escravidão e, por isso, eram, já de saída, os principais suspeitos e potenciais vítimas da política repressiva.
O cais do porto, além de contar com uma maioria de pretos e pardos, organizava a
maior parte de sua mão-de-obra através do trabalho avulso, sem vínculo empregatício, o que ia de encontro com aquilo que se esperava do ideal da nova sociedade do trabalho livre, especialmente por não haver limites claros entre a hora do trabalho, da folga e do lazer. O trabalho no porto misturava esses momentos, o que afetava a vida dos operários em diversos níveis.
Nosso amigo Antônio Mina parecia representar tudo aquilo que a república não
queria para esse novo mundo e, por isso, sofreu bastante com a repressão. Mas, como
vimos, ele não foi o único. Muitos outros negros como ele sofreram com a suspeição
generalizada, que os transformavam em pessoas perigosas. No entanto, apesar da visão negativa que a sociedade tinha dos libertos e dos negros de uma maneira geral, julgando-os incapazes (e até perigosos!) para a vida em liberdade, muitos deles conseguiram dialogar com as novas regras, manter seu espaço e se organizarem de diversas formas.
No trabalho no porto, homens que viveram de perto as agruras da escravidão –
como Cândido Manoel Rodrigues, Joaquim Januário Nunes e João Evangelista Lapier,
prováveis ex-escravos ou filhos de escravos – organizaram sindicatos importantes, cujo quadro era formado por uma maioria de negros como eles.
Mas não era apenas no trabalho que esses homens se organizaram. Como vimos, os
negros do porto também se organizavam em torno da religião e do lazer. E nesses
momentos também sofreram com a repressão republicana que, assim como o Império,
desconfiava de ajuntamentos de negros e de práticas culturais que remetiam à escravidão e à África.
De qualquer forma, mesmo tendo dominado o cenário do cais carioca e mesmo
tendo ocupado regiões específicas da cidade – como Santa Rita e Santana, onde se
concentrava a maioria – os negros não se isolaram. Apesar de serem maioria ali, os brancos, principalmente imigrantes portugueses passaram a marcar presença na cena portuária desde fins do XIX.
Brancos e negros compartilhavam cada vez mais os espaços de trabalho, de
moradia, de lazer e religiosos e compartilhavam também a suspeição da polícia republicana que, apesar de atingir preferencialmente pretos e pardos, também tratava os “quase negros de tão pobres” com a mesma truculência.
Pessoas de diferentes cores e nacionalidades estabeleceram relações baseadas no
conflito, mas também de solidariedade, revelando que não é possível pensar na classe
trabalhadora em termos de uma homogeneidade. No Rio de Janeiro do início do século, os trabalhadores formavam uma massa bastante heterogênea. No entanto, ao compartilharem experiências semelhantes e se reunirem em espaços coletivos, se sociabilizavam, forjavam os laços de amizade e se identificavam, não apenas como negros e brancos, ou nacionais e portugueses, mas como trabalhadores.
Aqui, contamos com a ajuda de Antônio Mina, Bexiga, Pernambuco, Cardosinho,
Sabino Montezuma e muitos outros para contar essa história. No entanto, quantas histórias ainda não faltam ser contadas? Esse trabalho não dá conta de todas elas e por isso mesmo, ele é apenas o começo, pois ainda há muito o que se investigar sobre o misterioso cais do porto e muitos personagens esperando serem descobertos...
Fonte: O PORTO NEGRO: CULTURA E TRABALHO NO RIO DE JANEIRO DOS PRIMEIROS ANOS DO SÉC. XX - Dissertação de Mestrado - ERIKA BASTOS ARANTES
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